A fantástica Patagônia chilena |
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Bem no final da cordilheira dos Andes, existe um local paradisíaco repleto de montanhas, lagos e glaciares, com os mais extraordinários animais e moradores, como uma grande arca de Noé no extremo sul do Chile. Assim é a Patagônia chilena, cujo novo epicentro do turismo regional se encontra agora na pequena e pacata cidade de Puerto Natales, a cerca de duas horas e meia de carro do aeroporto de Punta Arenas. Antes apenas um ponto de passagem para alimentação e reabastecimento de veículos a caminho do Parque Nacional Torres del Paine, Puerto Natales encantou os primeiros estrangeiros que ali pisaram e hoje se transformou definitivamente no novo centro do turismo patagônico do Chile. Muito mais do que simplesmente ser porta de entrada para o mais bonito parque chileno, Puerto Natales oferece em sua região a mais vasta possibilidade de experiências patagônicas que um viajante pode experimentar: fazendas de ovelhas, trekking, safáris fotográficos, pesca esportiva, escalada em gelo, rafting... E tudo isso com o maior conforto possível, já que importantes hotéis cinco estrelas abriram suas portas na cidade nos últimos anos. Fundada em 1911 a partir de um porto para embarcações inglesas, Puerto Natales cresceu e viu-se vocacionada para o turismo, mas ainda parece uma cidadezinha perdida no tempo. Chegou a ter 1 milhão e seiscentas mil ovelhas, mas hoje controla os rebanhos para que não haja desequilíbrio ambiental. Conserva até hoje estâncias que já foram “comparsas de esquiladores”, locais que reuniam esporadicamente cerca de 20 pessoas para a tosa de um rebanho de ovelhas.
A cidade foi a conexão da Argentina com o Oceano Pacífico através de Puerto Bories. Os quatreros – contrabandistas de gado – vieram da Argentina para a região pela cordilheira para que os animais não precisassem vir pelo mar, o que demandaria muito custo. O muro da Calle Bernardo Felipe, pintado pelo artista plástico Angelino Souto, conta a história indígena da cidade. A maioria de suas casas data dos anos 30 e 40 – as mais antigas foram todas destruídas, em geral por incêndios. O turismo é recente – começou há pouco mais de 15 anos – e a pesca (merluza e ouriço, principalmente) e a pecuária ainda são o ganha pão da maioria dos moradores. A principal rua, Calle Baquedano, concentra a maior parte dos restaurantes e lojas. Dizem os patagônicos que visitar a região não é uma viagem e sim uma iniciação. Ao contrário do que muita gente pensa, a Patagônia chilena é linda e convidativa ao visitante durante o ano todo, inclusive no auge do inverno, quando sua flora se reveste de uma aura especial. Com geografia limitada por grandes geleiras e glaciares, a patagônia chilena oferece ao visitante pampas abertos, colinas, riachos, lagos com icebergs flutuantes e até mesmo fiordes (os únicos do hemisfério sul), datados de milhares e milhares de anos. Em toda parte, bosques e mais bosques de lengas, o carvalho patagônico, são invadidos por emas, ovelhas, guanacos (a lhama patagônica), águias e até mesmo pumas. Rochas planas (provenientes dos glaciares) e arredondadas (originárias dos rios) completam a paisagem bucólica, de terra de ninguém. No inverno, não há vento – que assola constantemente a região – como uma espécie de indulto aos que a visitam nesta época gelada do ano. O vento quente e úmido sopra do oeste ao noroeste e se mescla ao vento frio que vem do pólo, provocando quedas de pressão e precipitações constantes nas montanhas. As casas são poucas, esparsas, aqui e ali – Puerto Natales, que é a maior cidade da região, tem apenas 18 mil habitantes, e a região toda não ultrapassa 140 mil - , mas multi-coloridas, com seus telhados vermelhos, azuis, verdes e amarelos. De vez em quando, ao longo dos trajetos, surgem os gaúchos – ou baquedanos, como são conhecidos no local – com seus rebanhos de ovelhas ou gado. O cão (perro ovejero) – que costuma atender prontamente quando é chamado pelo nome - é sua principal ferramenta: são todos adestrados e cada um deles tem uma função na organização dos rebanhos.
“Aff, tô cansado de ver tanta vaca”, desabafa o gaúcho Adam “Chino” Paredes, após quase quatro dias transportando um rebanho por Sierra Baguales. Meu guia, o adorável Chechin ( como Sérgio Barria, 42, é conhecido por lá), natural de Puerto Natales, responde risonho: “Bem que sua mãe te avisava: estude, filho!”. Assim é o homem patagônico: humilde, nobre, solitário, mas sempre muito paciente e simpático. Todas as relações por ali são baseadas na palavra e na confiança – contratos ainda são coisa rara na região. Geralmente estão vestidos com uma manta castilla, uma espécie de poncho de lã grossa usado para cavalgar porque mantém no corpo do vaqueiro o calor do cavalo, sem deixar que a água penetre no tecido. Mas adoram festejar: “quando um gaúcho casa, ‘tira la casa por la ventana’”, brinca Chechin, contando que as festas de casamento costumam durar por 3 dias, recheadas com muita carne e vinho. Chechin é um verdadeiro personagem – e a simpatia em pessoa, rindo sempre como um menino. Trabalhou por 15 anos no Parque Torres del Paine, ainda que tivesse ido originalmente para trabalhar por apenas uma semana. Casado e com dois filhos, se orgulha de dizer que seu menino, desde pequeno, é apaixonado por cavalos e pelo campo. Aprendeu inglês de maneira autodidata, com os próprios turistas que recepcionava – e hoje sabe até português. Sua maior paixão são os cavalos selvagens – tem alguns, com nomes como Diablo, Lúcifer e por aí vai – e conta, no caminho para Sierra Baguales, que aprendeu a montá-los observando as vãs tentativas do pai e do tio. Antigo reduto de tribos Aoniken e Tehuelches, Sierra Baguales – o nome baguales vem dos cavalos e vacas selvagens que sempre existiram na região – até hoje realiza a Fiesta Creolla em fevereiro, durante 3 dias, para homenagear seus cavalos, como uma grande festa do tropeiro. E foi em Sierra Baguales, mais precisamente na Estância Los Leones. que encontrei o senhor Manuel Mañuco, 64, que vive só há 28 anos na região. Sua profissão? Caçador de pumas. “Os pumas costumam se meter em cavernas e às vezes só conseguimos pegá-lo lá dentro”. Vaidoso, e fumando muito enquanto preparava seu mate, contou durante o almoço que já matou mais de 30, para proteger os rebanhos de pecuaristas que lhe pagam cerca de 500 dólares por animal morto. O puma é o terror da região, pois chega a vitimar 70 ovelhas numa única noite; se tiver filhotes, este número pode chegar ao dobro.
Paisagem emblemática da região, com seus icebergs boiando constantemente no lago de mesmo nome, o glaciar Grey vem diminuindo cerca de 2km a cada dez anos nos últimos tempos. “O aquecimento global é um processo natural da terra. Sim, o homem pode estar intensificando, mas estamos dentro de um processo de aquecimento da terra mesmo, isso é um ciclo natural”, defende Felipe Cantos, que trabalha como guia turístico na região. Hoje, são 28km de extensão na geleira que vai desde o campo de gelo ao lago; trekking e passeios de caiaque estão entre as principais atrações do local. O lago espelha as montanhas ao seu redor ao longo do dia, com vegetacao rasteira e arbustos espinhosos, enquanto, vez ou outra, como o estrondo de um canhao, um pedaco de gelo se desprende da geleira em direcao as aguas calmas do lago. Ali perto, o chileno Hugo Bonicioli resolveu converter a antiga estância de seu pai em pólo turísitco da patagônia: o Rancho Lourdes hoje oferece cavalgadas, passeios em caiaque e bicicletas – tudo isso com um autêntico churrasco gaúcho no final. Assim como Chechin, Hugo também se orgulha de vestir-se com um autêntico baquedano ao explorar as terras da família – de mais de 4 mil hectares - com esmero. Seu avô foi estancieiro e seu pai trabalhou por muitos anos para os ingleses exploradores da Terra do Fogo. A proposta de sua estância é que o turista possa viver, por um dia, como um autêntico patagônico, sozinho no campo, como se vive desde há mais de cem anos. “Abrimos as portas ao turismo, mas de maneira nenhuma queremos mudar pelo turismo”, me diz. Com Hugo, trabalha Ulisses Alvarado Villabonco, um grande boxeador chileno. Hoje, aos 64 anos, adestra os cães da estância para que saibam trabalhar corretamente com as ovelhas.
Mas o Parque Nacional Torres del Paine, com seus duzentos e quarenta e dois mil hectares considerados patrimônio mundial pela UNESCO desde 1978, é definitivamente a principal atração para quem se aventura pela patagônia chilena. Chamado de “Alasca em miniatura” durante o inverno, adquire colorações diferentes ao longo do ano, especialmente em suas torres pontiagudas - geralmente douradas pelo sol durante todo o dia - , sobre as quais nunca há neve. Ao redor, lagos, resquícios da era do gelo e uma vegetação hipnotizante. Cores homogêneas muito densas, repletas de contrastes do verde-esmeralda da mata com o azul turquesa dos lagos, aparecem nos muitos bosques marcados por ruídos de quedas d’agua. As famosas torres não chegam a dois mil metros de altura mas, de tão lisas, fazem com que cada pedaço de neve que escorra por suas paredes faça um estrondo até chegar à água. Antes de partir, é essencial ver as aguas verdes do Nordeskjold descerem para o lago Pehoé, de verde profundo durante todo o ano.
Para ficar: Hotel Remota : www.remota.cl Texto e fotos: Mari Campos |